Esperança de solução para um velho problema, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) continua colecionando trapalhadas, desde que passou à condição de substituto do anacrônico vestibular como sistema de acesso ao ensino superior público no país. A última confusão começou tão logo foram abertas, na internet, domingo, as inscrições às 83.125 vagas nas universidades federais que adotam a seleção, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). No papel ou na tela do computador, tudo parecia simples e muito prático, mas o Ministério da Educação (MEC) não conseguiu passar sem mais uma demonstração de ineficiência e despreparo. Nem parece que o pessoal envolvido na operação sabia que 3,3 milhões de estudantes se submeteram aos testes e a maior parte se tornou potencial candidata àquelas vagas. A estrutura de informática que prepararam e o prazo que fixaram paras as inscrições (apenas três dias) produziram mais confusão.
É verdade que nem todas as instituições federais de ensino superior estão envolvidas nesta fase, já que importantes instituições ficaram de fora, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que aceita o desempenho no Enem apenas em substituição à primeira etapa de seu vestibular. Mesmo assim, qualquer um de mediano bom senso teria se preparado para um verdadeiro turbilhão de acessos. Movidos pela agilidade com que a juventude manipula os recursos da internet e pela natural corrida para garantir a sonhada vaga em um curso gratuito de uma universidade pública, os candidatos levaram poucas horas para passar da ansiedade à irritação. O MEC admitiu que subestimou a quantidade de acessos, tendo montado sistema para suportar até 400 inscrições por minuto. Horas depois de aberto, o site do aluno já registrava 600 inscrições por minuto. Em certos momentos, a página teve 84 mil acessos simultâneos.
A reclamação deu lugar ao desespero, com milhares de candidatos manifestando por todos os meios o temor de perder a chance de ingresso na faculdade desejada por absoluta falta de acesso ao Sisu. Temendo carregar mais essa fama de trapalhão, o MEC diz ter providenciado reforço na capacidade de operação do sistema e, ontem, acionou dispositivo que encerra automaticamente a página aberta por mais de 20 minutos. Eram tentativas de escapar do vexame de ter de assumir mais uma prorrogação de data na tumultuada história recente do Enem. O fato já parecia inexorável, quando a Justiça Federal do Rio de Janeiro, atendendo a pedido do Ministério Público Federal (MPF), determinou o aumento do prazo de inscrições de terça para quinta-feira. A ação foi movida contra decisão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) de circunscrever as inscrições pelo Sisu a ex-alunos de escolas públicas daquele estado. A decisão judicial permitiu ao MEC transferir o ônus da prorrogação à UFRJ, mas nem de longe diminui sua responsabilidade por mais essa demonstração da falta de seriedade com que tem conduzido o Enem, o mais importante avanço no processo de tornar o ingresso à universidade pública mais justo e democrático.